Capítulo 3 - Revelações

03-08-2011 18:19

             Alex sentia-se fraco.

Os pesadelos pareciam conduzi-lo por uma longa estrada que o esgotava física e psicologicamente. Esta situação já se vinha a arrastar há imenso tempo e o seu corpo ressentia-se disso.

Agora encontrava-se mais calmo. O estranho sabor que lhe envenenava a garganta desaparecera, dando lugar a um vazio e a uma terrível angústia que o deixava abatido.

Era uma sensação louca que lhe vincava cicatrizes no coração.

Apesar de apenas a conhecer em sonhos, Alex começava a sentir-se, de certa forma, atraído mas também dominado por esta estonteante mulher.

Quem seria ela? E porque razão teimava em o visitar, noite após noite, no recanto mais secreto dos seus sonhos?

 

Enquanto isso, Carlos e Catarina observavam boquiabertos o jovem que fizera questão em os visitar naquele dia cinzento.

- Quem és tu? – Perguntou Carlos – E como é que nos conheces?

Apesar do frio que se fazia sentir, o rapaz tinha a testa carregada de suor. Notava-se uma certa intranquilidade no seu olhar e ânsia na sua forma de falar.

- Pois bem. Eu chamo-me Pedro. – Apresentou-se – E estou aqui porque vocês precisam de mim.

Carlos soltou uma gargalhada estridente.

- Precisamos de ti? Para quê?

Pedro deu dois passos na direção de Carlos e fitou-o diretamente nos olhos.

- O que me sabes dizer sobre os sonhos que andam a inquietar o Alex?

- Qual é o problema dos meus sonhos? – Ouviu-se por detrás dele.

Alex acabara de entrar em casa, observando o rapaz de cima a baixo.

O azul dos seus olhos sobressaía no tom pálido da sua pele.

Alex era um jovem atraente, cheio de charme. Tinha um ar inocente e uma expressão tranquila e confiante.

- E então? Qual é o problema dos meus sonhos? – Voltou a perguntar.

Catarina correu para os seus braços e agarrou-o, num abraço apertado.

- Ainda bem que chegaste. – Desabafou ela.

- Perfeito! – Deixou escapar Pedro, com um enorme sorriso nos lábios – Agora sim, estamos todos reunidos.

Alex, Catarina e Carlos entreolhavam-se confusos, sem conseguirem descortinar o que estava a acontecer.

- Muito bem… – Falou Pedro – Vou tentar explicar-vos o que está a acontecer.

Além de desconfiados, todos se encontravam intrigados e ansiosos por ouvir o que o jovem tinha para lhes contar.

- Alex, continuas a sonhar com ela? Com a bela mulher que te faz cair de amores e que te mata no final?

Alex acenou afirmativamente com a cabeça.

- Sim, continuo. Mas não sei quem é… Tu sabes?

Pedro soltou um sorriso amarelo e procurou por algo nos bolsos interiores do seu casaco.

As suas mãos agarraram um livro de aspeto antigo e corrompido pelo tempo, devido ao tom envelhecido e amarelado das suas folhas.

- Já ouviram falar de Nesfiriti, rainha dos vampiros, deusa das trevas?

Alex e Catarina encolheram os ombros, dando a entender que nunca tinham ouvido falar de tal personagem.

Por seu lado, Carlos manteve-se imóvel, nada demonstrando.

- Pois bem… – Prosseguiu Pedro – Nesfiriti é uma figura lendária, personagem de histórias fantásticas. Conta a lenda que é a rainha de todos os vampiros e que tem o poder de os observar a todos, na sua busca incessante por aquele que um dia se juntará a ela no altar, de modo a concretizar a união que ditará o fim da humanidade e o inicio de um reinado de trevas e caos.

Pedro alicerçava as suas palavras em pequenos conteúdos retirados do livro que trazia nas mãos.

- Nesfiriti é o expoente máximo da maldade. É uma mulher bela, com milhares de anos e um coração repleto de dor, desgraça, miséria e solidão. Contudo ela procura precisamente o seu oposto. Um vampiro com bom coração, neste caso, o expoente máximo da bondade. Alguém que a contraste, tal como a noite faz com o dia. Dessa união resultará uma fusão entre o bem e o mal e apenas o mais forte sobreviverá. Neste caso concreto, Nesfiriti será o elo mais forte e com essa união multiplicará todos os seus poderes transformando-se na mais temível deusa que um dia o mundo conheceu. Ninguém terá forças para lhe fazer frente e o mundo inteiro será dominado pelo seu exército de vampiros sanguinários que escravizarão toda a raça humana, espalhando o terror por todos os continentes e por todos os mares.

Carlos soltou um sorriso.

- Andas a ler muitos livros, rapazinho. Isso é apenas ficção, nada mais.

- Será que é apenas ficção? – Perguntou Pedro, com os olhos postados em Alex.

Alex nada respondeu.

- Sendo assim, – Prosseguiu Pedro – os vampiros também são apenas ficção, não acham?

Após essas palavras, o silêncio foi geral.

Carlos aproximou-se então do jovem e observou-o, sarcasticamente.

- Conheces algum vampiro?

Pedro deu dois passos atrás, um pouco a medo e sorriu.

- Pessoalmente… Agora conheço dois. – Respondeu – A ti e ao Alex. Mas existem muitos mais por aí, misturados com as pessoas normais. Os vampiros existem e vocês são a prova disso.

- Quem és tu? – Perguntou Carlos em tom ameaçador.

Pedro engoliu em seco, assustado.

- Calma! Eu explico tudo.

O jovem sentia-se ameaçado por Carlos mas era exatamente com o que estava à espera. Ele já preverá que tal fosse acontecer.

- Eu tenho um dom. Eu consigo visualizar o que vai acontecer no futuro.

Mais uma vez o silêncio voltou a instalar-se entre eles.

O ar parecia infestado de desconfiança, confusão, perplexidade…

- Desde novo que tenho este raro poder de ter visões. Há quem pense que isto é uma maldição, mas eu tenho a certeza que é um dom que me foi concebido para poder ajudar aqueles que necessitam do meu auxílio.

- Então, estás aqui para nos ajudar? – Perguntou Alex – É isso?

- Sim – Respondeu Pedro – Vocês fazem parte do meu futuro, tal como eu faço do vosso. Somos todos essenciais uns aos outros. Eu precisava encontrar-me convosco para nos aliarmos contra este mal que se aproxima.

- E esse mal, se bem entendi, é essa tal de Nesfiriti?

- Sim, Alex. Nesfiriti encontrou aquele que procurava há séculos. Tu és o escolhido para ser o seu noivo.

Catarina estremeceu e agarrou com força a mão do seu amigo.

- Então é ela quem me visita nos sonhos… essa tal de Nesfiriti.

- Isso é tudo tretas. – Resmungou Carlos – Não me digas que acreditas nestas piroseiras?

Alex caminhou ao encontro de Carlos e abraçou-o firmemente.

- Eu já nem sei em que acreditar, meu irmão. Eu só sei que estes pesadelos são cada vez mais reais e estão a dar cabo de mim. Eu vou acabar por dar em louco se isto continuar assim.

Pedro aproximou-se e tentou-os tranquilizar.

- Confiem em mim. Estou aqui para vos ajudar. Sei que vai ser duro mas vamos conseguir resolver esta situação.

A tempestade que lá fora ameaçava ruir, instalara-se em definitivo. Chuvas fortes esbarravam nas janelas e o vento uivava por entre as frinchas da porta.

Os quatro jovens dialogavam agora na sala, sentados em grandes cadeirões antigos, acastanhados em couro de Carlos.

Pedro voltara a contar toda a história de início, mostrando-lhes o livro que trouxera em seu auxílio.

- Entenderam agora quem ela é e o que pretende? – Perguntou no final.

- Sim. – Respondeu Catarina – Mas como é que podemos ter a certeza que é ela quem anda a aparecer em sonhos ao Alex?

O estranho rapaz aguçara a curiosidade dos três jovens e estes apenas procuravam fundamentos para poderem acreditar nas suas palavras.

Pedro estava agora muito mais tranquilo. A ansiedade e o nervosismo que sentira quando entrara naquela casa já se encontravam praticamente extintos. Restava-lhe aguardar que acreditassem no que dizia.

- Fácil. Ninguém sonha constantemente com a mesma pessoa. Nos sonhos de Alex, o único que muda é o cenário, pois as personagens são sempre as mesmas: ele e Nesfiriti. Ela já o encontrou e agora está a fazer uso das suas habilidades para o seduzir e hipnotizar. Quando Alex estiver completamente atraído por ela, Nesfiriti aparecerá para completar a ligação que os unirá para sempre. Eu já tive a oportunidade de contemplar essa união nas minhas visões.

- Então isso significa que eles vão-se unir? – Perguntou Catarina, aflita.

- Não! – Respondeu Pedro prontamente – As minhas visões servem para me alertar e, consequentemente, para me darem a oportunidade de modificá-las. O futuro está em constante movimento e todas as ações que forem tomadas no presente, influenciarão e de que maneira o futuro. O que é certo hoje, amanhã poderá ser totalmente irreal, devido à consequência dos nossos actos. Se unirmos os nossos poderes conseguiremos derrotar esta rainha das trevas.

- E o que temos que fazer? – Perguntou Alex.

- Primeiro que tudo, temos que aprender a lidar com as nossas maiores armas, ou seja, temos que conhecer os nossos verdadeiros poderes.

Catarina soltou uma gargalhada.

- Poderes? Que poderes? Eu cá sou só uma miúda normal, não sou nenhuma heroína. Nem sequer sou vampira.

Pedro sorriu e piscou-lhe um olho.

- Não és vampira, mas tens o poder de acalmar todas as criaturas das trevas, ou ainda não te tinhas apercebido disso? O teu poder está no toque. Sempre que tocas na face dum ser não humano consegues retirar-lhe toda a raiva, todo o ódio, toda a força que ele tem e transforma-lo por minutos num ser fraco, carregado de dor. O teu toque tem o poder de fazer um vampiro ficar fragilizado e numa angústia tremenda.

A rapariga ficou muda, quase em estado de choque. Agora percebera o que houvera acontecido poucos momentos atrás, quando Carlos se preparava para a atacar. O seu toque salvara-a duma morte que parecia anunciada.

Carlos e Alex encontravam-se boquiabertos. Nunca haviam suspeitado que ela tivesse este dom de auto-defesa.

- Então… – Balbuciou ela – Foi por isso que o Carlos não me atacou há um bocado…

 Perante estas palavras, uma expressão de surpresa apareceu no rosto de Alex.

Carlos parecia envergonhado e arrependido, com os olhos postados no chão.

- Tu tentaste atacá-la? – Perguntou Alex enfurecido.

Carlos nada respondeu. Ele sabia que Alex e Catarina eram bons amigos e o que houvera acontecido não era nada bom para o clima de amizade entre eles.

- Já passou. – Disse Catarina, tentando amenizar o ambiente.

Alex estava furioso com ele.

Ele sabia que Carlos tinha dificuldades na contenção da sua enorme sede, mas não admitia que ele tivesse tentado fazer mal à sua amiga.

Pedro, receando que eles se desentendessem, intrometeu-se de imediato, deitando água na fervura.

- Calma, vá lá. Nós precisamos de nos manter unidos. Só assim é que vamos conseguir fazer frente a este mal.

Alex suspirou irritado e tentou tranquilizar.

- Nós depois conversamos, Carlos. Não te preocupes que na altura certa vamos falar direitinho sobre isto.

Carlos estava tremendamente embaraçado e notava-se um nervoso miudinho a crescer dentro dele.

- Pois bem… – Prosseguiu Pedro – como eu dizia, depois de conhecermos os nossos verdadeiros poderes, precisamos recrutar uma outra pessoa para nos auxiliar. Alguém que, digamos, será a força bruta do grupo. Uma espécie de guerreiro que esteja habituado a lidar com a morte de perto e em que o termo “matar” faça parte do seu dia-a-dia habitual. Conhecem alguém com essas caraterísticas? Outro vampiro talvez?

Carlos ergueu-se da sua cadeira num ápice e resmungou.

- Não, isso não! Se for quem eu estou a pensar, esquece! Não vou juntar-me a esse assassino sem escrúpulos.

Alex baixou a cabeça e balbuciou entre dentes.

- Estás a referir-te ao Angel?

Pedro cerrou os dentes e silenciosamente acenou com a cabeça. Era precisamente sobre ele que se estava a falar.

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