Capítulo 1 - Pesadelos
Lá estavas tu novamente, na clareira da floresta, a dançar e a deixar-me hipnotizado. Não me cansava de te observar e de te desejar.
Apenas trazias um manto transparente por cima do corpo, deixando transparecer todas as curvas que te moldavam, como se uma deusa te tratasses.
A tua pele branca como a luz contrastava com a escuridão da noite que te envolvia. Eras como um farol no meio de uma noite de tempestade.
O meu pensamento era mais do que um simples desejo mortal. Procurava ir ao encontro da tua pele, sentir o gosto da tua carne, provar o sabor do teu sangue.
E tu sabias que eu te desejava… A forma como exibias o teu corpo, com essa tua expressão sensual e provocadora, convidava-me a ir ao teu encontro.
O teu sorriso… O teu olhar…
O luar da noite dava mais brilho a esse teu corpo, transformando-te no mais doce pecado.
Queria tanto tocar-te, acariciar-te…
Mas não posso…
Não te quero amaldiçoar com esta minha triste sina.
Tu pertences ao mundo dos vivos, lugar onde em tempos também já pertenci e de onde, infelizmente, fui retirado.
O meu coração bate apressado e os meus braços desejam agarrar-te.
Não! Tenho que me controlar…
Sinto a saliva crescer-me na boca, sinto o teu cheiro, ouço o bater do teu coração, sinto o sangue a correr dentro das tuas veias, como que a implorar por mim…
Blasfemo aos céus e às trevas por esta terrível tentação.
Os teus olhos cruzam-se com os meus e dançam agarrados.
Sei que pretendes fazer o mesmo com o meu corpo. Queres que te abrace, que te dispa, que passe uma noite de amor ao teu lado.
Mas tu nem sequer imaginas a maldição que transporto em mim.
Se suspeitasses já tinhas fugido para longe e a esta hora estavas trancada no quarto, com a cabeça escondida debaixo da almofada.
Que olhar tão inocente… Tão puro… És, sem dúvidas, a mais bela mulher que já conheci em toda a minha vida.
Mas… não te quero fazer mal. Apenas pretendo ver-te dançar. Permanecer apaixonado pelos teus movimentos sensuais.
Eu sei que tu queres mais… Noto a ansiedade a crescer em ti e sinto que não vais resistir muito tempo sem te dirigires até mim.
Deuses ou demónios que conduzem a minha vida, protejam aquela que amo e não me deixem arrastá-la para uma vida de pesadelo como a minha.
Mas eu sabia que isto ia acontecer. Mais cedo ou mais tarde, o feitiço da lua, iria trazer-te ao meu encontro.
Não! Não venhas, por favor!... Não te aproximes de mim!
Continua a dançar e não venhas para aqui.
Fecho os olhos. Sinto-te a vir na minha direção. Consigo mesmo ouvir a tua respiração ofegante.
Não sabes o que estás a fazer… Volta para trás.
Quero fugir mas não tenho forças. Estou preso ao chão e as minhas pernas encontram-se imóveis.
Tu viajas ao meu encontro, como que desperta por uma força sobrenatural.
Desculpa. Não te queria hipnotizar. Muito menos fazer-te mal.
Mas tu vens… E tocas na minha face com as tuas mãos sedosas.
Tens mãos de fada, suaves e macias. O teu toque é carinhoso e pede um beijo de amor.
Continuo com os olhos fechados, pois não quero testemunhar o pecado que estou prestes a cometer.
Estou em completo delírio de loucura. Até quando vou aguentar esta sede… e esta fome que me consome por dentro e que arde sem sequer me dar hipótese de a extinguir?
Não te quero fazer mal. Quero-te amar, ser teu… Viver uma história de amor com um final feliz.
E tu sabes que eu não estou bem… Sabes que estou doente.
Por esta altura, devo estar branco como a neve, com a testa impregnada de suor gelado.
Mesmo assim tu não vais embora. Insistes em ficar ao meu lado e em continuar a acariciar a minha face com os teus dedos esguios.
Acredita que já nem sei se o hipnotizado sou eu ou se és tu…
Mas... o toque das tuas mãos está a acalmar-me.
Já não sinto o desejo de te fazer mal. Já não sinto a necessidade de te trazer para o meu mundo amaldiçoado.
Agora posso abrir os olhos.
Ó deusa tão bela que te encontras frente a este meu olhar adocicado.
Estou perdido de amores pela tua beleza. Os teus cabelos negros bailam ao sabor do vento e os teus lábios carnudos e vermelhos pedem para te beijar.
Os teus olhos são azuis, iguais aos meus. Um azul brilhante que faz lembrar a imensidão do mar, sereno e ao mesmo tempo tão perigoso e mortífero.
Em pensamento peço-te que me beijes. É um desejo que pretendo ver transformado em realidade.
A tua boca aproxima-se da minha. Sinto o teu respirar excitado e consigo ver a tua língua a querer saltar para dentro de mim.
Pela primeira vez, desde a minha metamorfose, consigo beijar uma mulher sem a necessidade de ter que lhe tirar a vida.
Que saudades tinha de um beijo assim, apaixonado.
Sinto-me vivo novamente. Estava cansado deste enclausuramento que apenas trazia náuseas e angústias à minha existência.
Mas… algo de estranho se passa.
O teu beijo sabe a veneno.
Sinto a cabeça a andar à roda e tenho dificuldades em respirar…
O que me estás a fazer?
Larga-me!
Tu afastas-te e dás uma risada maquiavélica e inquietante. O teu rosto tão belo, afinal parece esconder uma alma maligna e letal.
Onde está aquela mulher angelical que me apaixonou enquanto dançava?
De bela, repentinamente passaste a besta e eu, de monstro passei a vítima…
Sinto o teu veneno a correr nas minhas veias. Sinto o coração a dilacerar.
Afinal quem és tu? Que criatura fantástica és para depositar no meu corpo veneno tão mortal que me asfixia tão rapidamente?
Sinto-me fraco. Impotente para reverter esta maldição.
Tu apenas ris, enquanto me observas a deambular tonto, sem ter a noção de quando cairei redondo pela terra fria que se encontra debaixo dos meus pés.
Tanto receio de matar eu tinha, e agora quem estava a morrer era eu.
O veneno que corria em mim era tão intenso que nem me deixava raciocinar.
Tantas vezes predador, a sugar vidas após um beijo, virei caça desta criatura abominável, mas ao mesmo tempo tão bela.
Os meus olhos já nada mais viam, além de manchas escuras e trémulas.
Por fim, acabei por sucumbir e o meu corpo desfaleceu pelo chão.
A minha mente divagava, aprisionada a memórias e imagens do meu passado recente. Mortes, orgias sanguinárias, pecado, luxúria…
Parecia que desta vez encontrára a paz necessária e que tanta falta fazia à minha alma.
E afinal… hoje até estava uma noite bonita para se morrer…