Capítulo 10 - Duelo ao Luar

31-03-2012 16:02

 

A aventura começara.

Durante vários e longos dias, o grupo de guerreiros rumou a norte, caminhando em direcção aos reinos tenebrosos de Nesfiriti.

Alex continuava a ter pesadelos, cada vez mais constantes e reais. Nesfiriti continuava a avisá-lo e a tentar precavê-lo sobre traições no seio dos seus companheiros e tentava a todo o custo convence-lo que as suas intenções para com ele eram nobres e merecedoras de confiança.

O jovem vampiro sentia-se cada vez mais só. Abandonado num turbilhão de dúvidas que o massacravam interiormente, fazendo-o duvidar de tudo e de todos. Mas o silêncio apoderara-se dele. Já não falava dos sonhos aos seus colegas, preferindo abstê-los das suas dúvidas, dos seus receios…

Wolf, por seu lado, acabara por os surpreender pela positiva.

Sempre que a lua desaparecia do horizonte, largava a pele de lobisomem tenebroso dando lugar a um homem simples. Uma pessoa extremamente recatada e de elevada educação. Ninguém imaginaria que perante o feitiço da lua, aquele homem tão singelo se transformasse num ser tão horrendo e assustador.

Angel desaparecia de longe a longe. O predador era incapaz de controlar a sua insaciável sede por sangue fresco e ausentava-se para caçadas sangrentas sempre que pressentia humanos por perto.

Pedro e Catarina eram aqueles que mais se mostravam desgastados por tão longa viagem. Os muitos quilómetros que traçavam diariamente cada vez os esgotavam mais.

Catarina conseguia restabelecer energias, observando ou conversando com Alex. Ele cada vez estava mais calado e triste, o que fazia com que a rapariga não desistisse de lutar na tentativa de voltar a trazer paz e conforto àquele que tanto amava.

Ela sentia o seu afastamento mas não se deixava abater por isso. No fundo, tinha a convicção que se conseguissem derrotar a responsável por toda aquela confusão da sua cabeça, ele voltaria a ser o Alex que ela sempre adorara. O seu melhor amigo, aquele que sempre estivera do seu lado e que nunca a houvera desamparado.

Pedro voltara a ter visões.

Desta vez não visualizara a união de Alex com Nesfiriti, mas sim uma gigantesca batalha em que no final a rainha sairia derrotada, com todos os elementos do seu grupo a festejarem euforicamente diante do corpo inanimado desta.

Estas novas visões haviam surgido como um grande fôlego, ajudando-o a ganhar forças para continuar a levar avante o seu plano.

- Mais dois dias e entramos no reino de Nesfiriti. A partir de agora, olhos bem abertos pois o perigo pode surgir de qualquer lado. – Avisou Angel – Estas terras estão infestadas de aliados seus e temos que continuar a avançar com a máxima descrição possível.

Os 6 jovens encontravam-se nas zonas rochosas do Deserto das Almas, um local tenebroso, tal como o seu próprio nome indicava.

Esta era uma região inabitada, onde somente se vislumbrava areia e grandes rochas que se erguiam imponentemente, parecendo quase tocarem no céu. Mas eles sabiam que apesar da aparente calma que parecia pairar no ar, algo de misterioso existia naquele local.

Os livros denominavam aquele local como um cemitério de almas abandonadas. Quem quer que se aventurasse no seu interior acabava por desaparecer, juntando-se ao rol de almas perdidas que o habitavam.

- Este sítio mete-me medo. – Comentou Catarina, com um ar assustado bem reflectido nas suas expressões faciais.

Alex também pressentia algo de misterioso. O seu coração começara a bater mais rápido desde que entrara no deserto. Apesar de não o conseguir explicar, sentia um desconforto constante. Era como se alguém os observasse ao longe, despindo-os com o olhar.

- Tenho a certeza que estamos a ser observados. – Deixou escapar por entre dentes.

Mas não se via ninguém por perto.

O silêncio era avassalador. Nem um insecto se fazia ouvir e até o vento não parecia querer soprar naquele local.

- Mantenham-se calmos! – Pediu Angel – Eu já por aqui passei e nada me aconteceu. Este local não tem nada de assombrado ou de amaldiçoado como costumam espalhar por aí.

Catarina correu para os braços de Alex, deixando que este a abraçasse com força. Ela pretendia recuperar a calma que teimava em querer-lhe fugir.

- Vamos lá, Catarina. Não tenhas medo. Eu não deixo que nada de mal te aconteça.

A rapariga encostou a cabeça ao peito do seu protector e sorriu. As suas palavras serviam como alavanca para as suas forças, um espécie de combustível para a alma que a ajudava a restabelecer a confiança de que tanto estava necessitada.

Assustados mas ao mesmo tempo tentando manter a calma, continuaram a avançar para o interior daquelas terras desertas.

A noite começava a chegar e com isso Wolf começara a ficar nervoso, estremecendo constantemente e não conseguindo controlar a sua normal respiração. Parecia estar a ser asfixiado.

Estava para breve uma nova transformação.

Os restantes elementos do grupo ainda não conseguiam mostrar-se indiferentes a este facto e não escondiam o desconforto que sentiam ao presenciarem tamanha situação.

Wolf parecia sofrer com a metamorfose. Era uma maldição que não conseguia evitar e que parecia despedaça-lo interiormente.

As modificações repentinas no seu corpo causavam-lhe dores tremendas, pois a sua pele ia esticando até rebentar, dando lugar a um novo corpo maçudo e peludo.

E poucos minutos deveriam faltar para tal voltar a acontecer.

Mas nisto, algo gelou-os da cabeça aos pés.

Gritos agudos ecoaram por todo o lado como se repentinamente as rochas houvessem ganho vida, cercando-os com o seu som infernal.

Parecia que a noite acabara de despertar algo que se encontrava escondido à espera que as sombras o libertassem.

Os gritos selvagens pareciam crescer constantemente, quase os ensurdecendo.

O que quer que fosse rodeava-os e aproximava-se aproveitando a fraca visibilidade.

- Ratos da noite. – Balbuciou Angel – Malditos sejam!

- Ratos? – Perguntou Catarina amedrontada.

Angel fez-lhes sinal para permanecerem quietos e em silêncio.

- Sim! São uma raça de vampiros anões que actuam somente quando a noite cai pois a sua pele é sensível à luminosidade. Não são muito fortes mas actuam sempre em enormes bandos, o que faz com que o pânico se espalhe nas suas vítimas ficando assim à mercê dos seus dentes afiados. São uns autênticos roedores e trituram a carne até ao osso.

Os passos das pequenas criaturas começavam a ouvir-se. Estavam cada vez mais perto e pareciam rodeá-los.

- Mantenham-se calmos e em silêncio. Eles são cegos e apenas nos conseguem detectar através do som que fazemos. Se ficarmos sossegados pode ser que eles desistam e se vão embora.

Os ratos da noite, ou vampiros anões eram uma espécie rara de vampiros que era praticamente desconhecida pois apenas surgiam de noite e sempre em ataques rápidos e extremamente mortais. Não mediam mais de quarenta centímetros e eram completamente cegos, orientando-se apenas pela audição.

Mas não deixavam de ser predadores exemplares e deveras eficazes.

Em poucos segundos trituravam por completo as suas vítimas, atacando primeiro as pernas e logo em seguida os braços e o pescoço.

Eram raros os casos de sobreviventes aos seus fulminantes ataques.

Os seis jovens quase nem respiravam.

As suas expressões não escondiam o horror de se verem rodeados por dezenas, se não centenas, de pequenas criaturas esfomeadas.

Os ratos da noite eram assustadores. Tinham aspecto grosseiro, sujo e com enormes barbas a cobrir-lhes a cara. Os olhos vidrados, devido à cegueira, ainda os tornavam mais sinistros e ameaçadores.

Em questões de segundos ficaram completamente rodeados.

As criaturas pareciam confusas, atónitas por não detectarem movimentos que confirmassem a presença das suas presas.

Com um pouco de sorte, Alex e seus amigos talvez conseguissem sair ilesos daquele feroz encurralamento.

Tudo parecia estar a correr bem.

Os pequenos roedores pareciam desanimados e ao mesmo tempo conformados por não encontrarem ninguém e começavam a abandonar o local, para enorme alívio dos seis jovens.

Mas foi então que surgiu algo para o qual não estavam preparados.

A lua acabara de se impor firmemente no alto dos céus e Wolf começava a sucumbir à sua maldição.

Nada, nem ninguém conseguiria impedir a sua iminente transformação.

Wolf soltou um grito fervoroso de dor que ecoou como se de mil trovões se tratasse.

Sem querer, acabara de denunciar a sua posição e bastaram escassos segundos para se ver cercado pelos roedores que salivavam e babavam, impacientes por cravarem os dentes na sua vítima.

O jovem lobisomem caiu pelo chão, contorcendo-se enquanto a sua pele rebentava, dando lugar ao novo ser.

Os ratos da noite não perderam tempo e atacaram-no de imediato, mordendo-o em todo o corpo.

Parecia uma verdadeira chacina.

Alex e os outros contemplavam com horror o ataque fulminante que executavam contra o seu amigo. Eles pretendiam ajudá-lo mas o medo era intenso, impedindo-os de qualquer reacção.

Wolf encontrava-se coberto pelos pequenos monstros, não se sabendo se continuaria vivo ou totalmente trucidado.

Catarina chorava silenciosamente, tapando os ouvidos com as mãos para não escutar o som da carne a ser estilhaçada.

Mas eis que Angel soltou um berro selvagem e lançou-se violentamente contra os seus adversários, agarrando-os e tentando-os retirar de cima de Wolf.

Ele não podia continuar quieto a presenciar a morte do seu amigo.

Alex e Carlos seguiram as suas pisadas e entregaram-se também eles à batalha, pontapeando e esmurrando todos os seres que lhes apareciam pela frente.

Estava na hora de serem uma equipa e de lutarem pela sobrevivência dos seus.

A agitação do combate pareceu despertar ainda mais criaturas que pareciam nascer do nada, envolvendo-os quase por completo.

Era uma luta desigual e para saírem vitoriosos quase dependiam de um acto divino, um milagre.

E foi então que um forte rugido se fez elevar no escuro dos céus.

Wolf, apesar de gravemente ferido, ergueu-se e arremessou-se com extrema agilidade contra os seus oponentes.

O lobo tinha força de mil homens e a sua fúria era tal que, com simples gestos das suas garras, despedaçava por completo os frágeis vampiros.

A sua agilidade era tremenda e a sua brutalidade não tinha igual.

Com dentadas diabólicas arrancava as cabeças dos seus adversários, enquanto os trespassava com as suas unhas afiadas.

Veloz como o vento, depressa transformou aquele local num cemitério infestado por pequenas criaturas trucidadas.

O quadro daquele cenário era diabólico, pintado a sangue vivo acabado de jorrar.

Wolf num ápice despedaçou todas aquelas criaturas que antes os haviam tentado aniquilar.

Centenas de corpos inanimados, desfeitos jaziam por terra colorindo a vermelho o chão que os suportava.

Os seis heróis conseguiam agora respirar fundo, recuperando do trauma que quase os matara momentos atrás.

Wolf estava brutalmente ferido, perdendo imenso sangue por várias partes do seu corpo. Eram feridas profundas provocadas pela dentadura afiada daqueles seres nojentos e sanguinários.

Alex e restantes pareciam bem, apenas com alguns arranhões superficiais que rapidamente iriam cicatrizar.

Os seus olhares recaíam agora unicamente no lobisomem que cambaleava entontecido, parecendo querer tombar a qualquer instante.

Não havia tempo a perder. Precisavam socorre-lo rapidamente, antes que fosse tarde de mais.

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