Capítulo 11 - Corrida contra o tempo

17-04-2012 17:44

 

As horas pareciam passar vertiginosamente, afundando-os cada vez mais num remoinho alucinatório de angústia e incapacidade para lidar com os ferimentos de Wolf.

Consoante o tempo passava mais frágil este se ia tornando, quase não tendo já forças para se aguentar em pé e demonstrando já uma grave dificuldade para respirar.

- Ele não vai resistir! – Desabafou Catarina por entre dentes e com os olhos encharcados de lágrimas. – Ele cada vez está a perder mais sangue e está mordido praticamente em todo o corpo. Ó Meu Deus, o que vamos fazer?

Angel, de braços cruzados, parecia meditar, procurando uma solução.

- Enquanto ele estiver na pele de lobo ele resiste. O problema vai ser quando voltar a ser humano. Nessa altura o seu corpo frágil não vai conseguir aguentar os graves ferimentos que tem. Temos que o tentar curar antes que a lua desapareça do horizonte.

A besta descomunal observava-os com uma expressão de pesar. Ele sabia que a sua vida estava por um fio e tentava a todos os custos resistir à dor que o entorpecia e que teimava em deitá-lo pelo chão.

O sentimento de incapacidade era notório entre todos eles.

Angel continuava pensativo, tentando encontrar uma maneira de o salvar.

- Já sei! – Gritou ele esperançado – Temos que o tentar levar a casa de um ancião que habita a poucos quilómetros daqui. Se existe alguém que o possa ajudar é ele. O velho sabe a cura para tudo por isso não nos custa nada tentar arranjar a ajuda dele.

O velho ancião de que Angel falava, de seu nome António da Cruz, morava a cerca de dez quilómetros de distância. Era muito conhecido pela sua fama de curandeiro e larga sabedoria.

O idoso morava no cimo de uma colina, numa casa antiga em pedra, rodeada por enormes terrenos carregados de árvores de fruto e arbustos. Não era uma pessoa dada a muitas amizades e passava o tempo isolado da população.

Havia quem o chamasse de bruxo, outros de milagreiro. Mas ninguém duvidava do seu poder. Doenças raras, complicações da vida, assuntos paranormais… Tudo parecia ter uma solução nas mãos daquele sábio homem.

Alex encontrava-se extremamente cabisbaixo, parecendo sofrer imenso com toda aquela situação. No fundo, sentia-se culpado e com remorsos por alguém se ferir às custas de uma aventura que era sua.

Se pudesse regressar atrás no tempo, não voltaria a envolver-se em tão arriscada missão. Acima de tudo, duvidava que conseguissem sobreviver ao exército gigantesco de Nesfiriti. Duvidava de tudo, até mesmo de si…

Catarina apercebeu-se do transtorno do seu amigo e aproximou-se.

O que fazer para voltar a alegrar aquele que tanto amava? Se ao menos ele soubesse da paixão avassaladora que ela sentia… Será que se sentiria melhor ao saber que ela estava ali unicamente por ele, preocupadíssima com o seu bem-estar?

A rapariga olhou-o fixamente nos olhos e abraçou-o.

Era tão bom senti-lo assim, aconchegado nos seus braços.

Alex largou uma lágrima que se esbarrou nos ombros da jovem.

A sua tristeza gigantesca transparecia e de que maneira no seu rosto. Estava tão confuso, tão desanimado…

Catarina apertou-o ainda com mais força e enxaguou-lhe os olhos com a ponta dos dedos.

Existia tanta ternura naquele gesto que era impossível alguém não se aperceber dos sentimentos que ela nutria por ele.

O vampiro fitou-a nos olhos e o universo parece ter estagnado naquele momento.

Catarina sentia a sua respiração bem perto das suas orelhas, o que a deixava arrepiada. Estava tão perto de conseguir arrancar-lhe um beijo.

Quase como por magia e em câmara lenta começaram a aproximar as suas bocas. Estavam a milímetros de se beijarem, algo que a jovem sempre desejara e que lhe provocava explosões de calor por todo o seu corpo. Praticamente era como se atingisse um orgasmo platónico no meio das estrelas.

- Vamos, Alex! – Gritou Angel – Não temos tempo a perder!

Alex estremeceu parecendo despertar dum sonho.

Assustado e ligeiramente envergonhado, desprendeu-se dos braços da rapariga, fitando-a como se lhe quisesse pedir desculpas com o olhar.

Que loucura tinha estado prestes a cometer?

O seu pensamento confuso e deambulatório não o deixava enxergar o óbvio.

Sentia culpa por tudo o que fazia ou pensava. Sentia-se louco com a mente a divagar e a afastar-se dos limites da realidade.

- Vamos lá! A casa do velhote ainda fica um pouco distante e temos que nos colocar lá antes que comece a amanhecer.

Sem perdas de tempo, começaram a seguir Angel que acelerara o passo rumo ao caminho que os levaria ao local pretendido.

Wolf parecia fazer um esforço sobre-humano para os acompanhar. Cada vez se sentia mais fraco e fatigado e a dor intensificava-se a cada minuto que passava.

Pedro encaminhou-se para a beira de Catarina, não tirando os olhos do ferido lobisomem.

- Acho que ele não vai sobreviver… – Comentou ele baixinho.

- Porque dizes isso?

- Calculo que seja por nunca o ter visto nas minhas visões. Eu nem sequer sabia da existência dele. Todas as visões que tive incluíam-nos unicamente a nós. Se calhar nunca o vi porque ele não vai acompanhar-nos no resto da aventura.

O coração da rapariga começou a bater mais rápido, quase lhe saltando pela boca. Ela não queria acreditar que tal desgraça lhes pudesse acontecer. Se Wolf morresse, a esperança de levarem a bom termo os seus planos seria muito mais reduzida.

- Não! Não posso acreditar! Tu próprio já afirmaste que as tuas visões estão em constante mudança e que todas as acções que tomamos podem modificar o futuro. É verdade, ou não?

- Sim! Nisso tens toda a razão.

- Então? Enquanto houver vida há esperança. Eu acredito que o vamos conseguir salvar. Nós precisamos dele.

Os quilómetros que os separavam da casa do ancião eram galgados praticamente a correr. Era importante chegar lá o mais rápido possível.

- Já falta pouco! Ele vive ao cimo desta colina. Agora é apenas mais um pouco de esforço e estamos lá.

Carlos e Alex encostaram-se a Wolf e ampararam-no.

Este encontrava-se terrivelmente debilitado e precisaria da ajuda deles para conseguir subir até ao cimo da colina. Sozinho nunca o conseguiria fazer.

Wolf colocou os seus fortes braços por cima dos ombros dos dois rapazes e deixou que estes o ajudassem a caminhar. Ele já pouco conseguia fazer pois a dor que o consumia estava a deixá-lo numa espécie de transe, quase anestesiado.

Deveriam faltar pouco mais de duas horas para a lua desaparecer e dar lugar ao sol. O ancião teria que ser rápido a curá-lo pois a transformação estava para breve.

No cimo da colina depararam-se então com a casa do velho.

Angel correu para a porta de madeira e bateu desenfreadamente à espera que a viessem abrir.

Não se ouvia um som, apenas o silêncio de uma noite sombria e calma.

- Quem é? – Perguntaram do interior da casa.

- Boa noite. – Respondeu Angel tentando ser educado – Nós somos um grupo de almas nocturnas que precisa da sua ajuda.

- A esta hora? Voltem de manhã pois ainda é muito cedo para eu começar a trabalhar.

- Senhor António, nós precisamos de si agora! Não podemos esperar pela manhã. O senhor tem que nos ajudar já!

Do outro lado não obtiveram qualquer resposta. Apenas um silêncio que os começava a atemorizar.

- Senhor António… está a ouvir-nos? – Insistiu Angel.

Nada! Parecia que o velho regressara para a cama e os deixara ali pendurados com o amigo a morrer nas mãos.

Mas foi então que se ouviu o barulho de uma chave no interior da porta e esta abriu-se com um rangido quase ensurdecedor.

Perante eles encontrava-se um homem de idade bastante avançada, careca, de baixa estatura e com imensas rugas na face.

- Se for brincadeira juro que vos mato. – Ameaçou o ancião – Virem-me acordar a estas horas. Se tem algum jeito…

Os olhos do velho ancião pareciam fulminá-los.

- Pois bem… O que vos traz cá então?

Angel arrumou-se ligeiramente para o lado, para que este pudesse contemplar Wolf, que estava um pouco mais recuado e seguro por Carlos e Alex.

- O nosso amigo está gravemente ferido. Precisamos da sua ajuda para o salvar.

O ancião abriu a boca de espanto e não escondeu uma certa insegurança e receio que imediatamente lhe cresceram no peito.

- Vocês trouxeram um homem lobo a minha casa? E chamam-no de amigo? Desde quando um lobisomem é amigo de alguém?

António da Cruz parecia assustado com a presença de Wolf.

- Levem esse animal daqui! Essa besta não entra em minha casa!

Angel agarrou o ancião por um braço e mudou a sua expressão instantaneamente.

- Você vai-nos ajudar, sim! – Ameaçou ele – Se tiver amor pela vida vai fazer tudo o que estiver ao seu alcance para o salvar. Se recusar, pode ter a certeza que não volta a ver a luz do sol.

O velho soltou um gemido de dor, devido ao aperto das mãos pesadas de Angel e apercebeu-se que estava numa encruzilhada sem saída.

- Não me façam mal. Eu vou ver o que consigo fazer por ele. Mas primeiro têm que me contar o que aconteceu para ele ficar em tão lastimável estado.

Angel contou o sucedido sobre o ataque dos ratos da noite e o ancião pareceu escutá-lo com atenção. No final, pediu para o levarem para dentro de casa e deitarem-no numa cama.

- Agora saiam. Eu preciso ficar a sós com ele. Aguardem por mim lá fora, por favor.

Os cinco jovens obedeceram ao seu pedido e saíram de casa.

Seguidamente, a porta trancou-se por detrás deles, deixando-os sozinhos na rua, sem saberem ao certo o que estaria a acontecer no seu interior.

Os minutos pareciam horas, tamanha era a ansiedade por voltarem a ter notícias de Wolf.

Silenciosamente, mantiveram-se sentados ao pé da porta e viram a lua desaparecer nos céus, dando lugar a um novo amanhecer.

- O que estará a acontecer lá dentro? – Questionou-se Catarina – Já lá vão cerca de duas horas e ainda não sabemos de nada. O dia já nasceu e nós aqui sem novidades acerca dele.

A ânsia e o nervosismo cresciam minuto a minuto.

A situação era alarmante. O feitiço da lua já houvera passado e Wolf era agora novamente um homem vulgar, frágil… Será que o ancião o houvera curado? E porque razão não dizia nada?

Não se ouvia um som, um grito, uma palavra…

O silêncio era avassalador e brutal, fazendo-os temer pelo pior.

- Cá para mim, o velhote deixou-o a morrer na cama e foi-se deitar. – Disparatou Angel com irritação – Se tal tiver acontecido podem crer que eu desfaço o velho.

Os restantes não sabiam o que pensar. Estavam inquietos à espera de algo que lhes matasse a curiosidade e os nervos.

Mas por fim, ouviram a porta a abrir e levantaram-se de imediato.

António da Cruz saiu para o exterior da casa e observou-os cabisbaixo.

Parecia esgotado, com a testa carregada de suor e as mãos imersas em sangue.

Meio tonto, deu dois pequenos passos trémulos na direcção deles e parou, abanando ligeiramente o corpo.

O suspense quase os matava e a expressão do velho não parecia trazer boas noticias.

- O veneno era forte demais… – Deixou escapar o ancião entre dentes, caindo inanimado pelo chão.

Alex correu ao seu alcance e segurou-o nos braços.

O curandeiro estava morto, pálido como a cal.

- Ele morreu! O homem acabou de morrer à nossa frente.

Catarina soltou um berro de terror e afundou-se num choro contagiante.

Eles não queriam acreditar no que estava a suceder.

Alex correu até junto da rapariga e abraçou-a. Os restantes permaneciam quietos como estatuas, ainda não repostos do choque que acabaram de ter.

A tristeza imperava naquele local. Tantas esperanças haviam depositado naquele pobre homem e afinal não dera em nada. Era uma perda brutal e que dificilmente os voltaria a animar para o resto da sua viagem.

No fundo, sentiam-se derrotados e com a confiança abalada.

Desistir talvez fosse a melhor opção. Pelo menos, a mais sensata.

Entre lágrimas e soluços, resignaram-se ao sucedido e juntaram-se como que prestando uma última homenagem ao amigo que haviam perdido.

A dor era forte. Apesar de o conhecerem há pouco tempo, sentiam como se houvessem perdido um familiar, alguém muito especial.

Mas foi então que ouviram uma voz à porta da casa que os deixou completamente boquiabertos.

- O que se passa? Onde estou?

Wolf observava-os com um ar de cansado e abatido.

Afinal não morrera.

O ancião houvera-o curado, encontrando a sua morte na procura dessa mesma cura. O veneno que corria no sangue do lobisomem houvera passado para o seu corpo, levando à sua queda fatídica.

Todos correram ao encontro de Wolf e abraçaram-no, felicíssimos pela sua salvação. Era uma emoção enorme que os deixava radiantes de felicidade.

O milagre que tanto ansiavam havia acontecido e ali estavam novamente reunidos, unidos como uma família, como uma verdadeira equipa.

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