Capítulo 12 - No reino de Nesfiriti
Uma nova energia surgira no seio do jovem grupo.
Depois do sucedido, pareciam muito mais determinados e animados para ultrapassar todas as adversidades que viessem a surgir-lhes pela frente.
Wolf recuperara rapidamente a boa forma e ninguém suspeitaria que há bem pouco tempo atrás havia estado aflito às portas da morte.
Respirava-se confiança e alegria.
O grupo valente liderado por Alex e Angel estava a poucas horas de cruzar as fronteiras do reino de Nesfiriti. Todos os cuidados agora eram poucos pois as esquinas encontravam-se repletas de inimigos dispostos a sacrificarem a própria vida pelo nome da sua maquiavélica rainha.
- Qual vai ser o nosso plano? – Questionou Alex, numa das breves pausas que faziam para recuperar forças.
Angel era o único que conhecia aquelas terras por isso todas as atenções debruçaram-se nele de imediato.
- É simples. – Começou a explicar – Temos que entrar nas terras dela durante a noite, que é a altura mais calma e tentarmos ser o mais discreto possíveis. Os primeiros quilómetros serão fáceis pois apesar de ser uma zona habitável, não é propriamente um local onde exista diversão nocturna, por isso os habitantes estarão todos recolhidos nas suas casas a dormir.
Todos o escutavam com imensa atenção, tentando acumular a maior informação possível. Não queriam cometer erros ou dar um passo em falso.
- Nessa primeira noite temos que tentar percorrer o maior terreno possível para conseguirmos encontrar estadia perto do centro da cidade. Depois de lá chegarmos teremos que nos manter escondidos durante o dia pois o centro da cidade está carregadíssimo de soldados, sempre em busca de intrusos. Essa será uma óptima oportunidade para descansarmos valentemente e aproveitar para recuperar o máximo de energias para as tarefas seguintes.
- Conheces algum sítio seguro onde possamos ficar? – Perguntou Carlos.
- Conheço sim. Não se preocupem com isso. Tenho muitos inimigos nesta terra mas, felizmente, também tenho bons amigos.
- E depois de chegarmos à cidade? – Perguntou Catarina – Voltaremos a ter que sair à noite?
Angel franziu o sobrolho e sorriu.
- Sim. Mas aí tudo vai complicar. O centro da cidade nunca dorme e os vampiros mais rebeldes e desordeiros adoram andar nas ruas a espalhar o terror e o caos. Vamos ter que voltar a avançar no terreno mas preparados para o que der e vier. Vai ser praticamente impossível traçar o nosso trajecto sem nos cruzarmos com alguns desses tipos.
- O palácio de Nesfiriti fica a quantos quilómetros do centro da cidade? – Perguntou Alex.
- Uns bons quilómetros… Mas se tudo correr bem no final dessa mesma noite estaremos lá. Temos é que tentar manter a máxima discrição para não nos vermos confrontados com o seu exército. Se eles detectarem a nossa presença estamos metidos num belo sarilho.
A aventura em que se estavam a meter era de loucos e extremamente perigosa. Eles sabiam que corriam enormes perigos mas agora era tarde demais para voltarem atrás. Tinham que ter fé e acreditar neles mesmos.
Assim que a noite se apoderou daquelas terras inóspitas, o grupo avançou no terreno, camuflado pela escuridão que se fazia sentir.
Angel falara acertado. Não se via ninguém nas ruas. Existiam imensas casas por todo o lado, mas o silêncio era geral, assustador até.
Todos os habitantes pareciam dormir.
Sem perdas de tempo ou pausas caminharam vários quilómetros sem se depararem com uma simples alma penada.
Ao longe, distinguiam-se luzes fortes que se elevavam no ar, dando a entender que esse seria o centro da cidade, um local totalmente diferente daquele por onde caminhavam. Era o coração de Medisa, a cidade governada pela titânica Nesfiriti.
Consoante se iam aproximando, conseguiam escutar sons trazidos pelo vento. Ouvia-se música, risadas, berros…
Medisa era talvez a cidade mais animada do planeta. Não constava em mapas, nem em livros, tamanho era o seu secretismo.
Os únicos que a conheciam eram os seus habitantes, vampiros demoníacos que ali faziam as suas vidas e que se divertiam em grandes orgias de sangue e violência.
Diariamente eram capturados humanos de outras cidades que serviam para banquetear toda aquela população esfomeada.
Apesar de ser uma cidade unicamente vampírica, não faltavam humanos para saciar aquelas gargantas ávidas de sangue quente.
Angel conhecia os seus segredos, os seus atalhos labirínticos, a sua imponente magnitude…
Conforme se aproximava do seu interior mais lembranças lhe vinham à memória, profanando-lhe a mente e quase o deixando enlouquecido.
Muitas tinham sido as noites em que se perdera na temperatura escaldante daquela cidade.
- Chegamos! – Sussurrou ele, interrompendo a sua marcha.
Perante eles encontrava-se um edifício enorme com uma porta gigantesca e imensas janelas. Parecia ser uma hospedaria com aspecto antigo e grosseiro. As paredes sem cor estavam cobertas de musgo, tornando-o sinistro e nada convidador.
- É aqui que vamos ficar? – Interrogou-se Catarina, parecendo pouco convencida.
Angel aproximou-se da porta e bateu três vezes com força. Ao mesmo tempo, pediu aos seus colegas para se manterem em silêncio.
Um brutamontes de quase dois metros de altura e gordo abriu a porta.
O seu aspecto era grotesco. Careca, com um bigode felpudo a tapar-lhe a boca, olhos esbugalhados…
A sua boca abriu de surpresa quando reconheceu quem se encontrava na sua frente.
- Angel? Tu és maluco, meu? O que estás aqui a fazer?
Os dois abraçaram-se debaixo de uma grande risada.
O homem parecia realmente surpreendido com aquela visita inesperada.
- Há quantos anos, meu… Nunca imaginei que te voltaria a ver por estas bandas, principalmente depois de tudo o que se passou. Tu só podes ser louco para arriscar voltar a estas terras.
Angel sorriu e apontou para os seus amigos.
- Podemos entrar? Eles estão comigo.
O homem nem sequer hesitou e convidou-os a entrar na casa.
Consoante iam entrando no velho edifício, iam sendo meticulosamente observados pelo seu anfitrião. Este parecia cada vez mais surpreso e estupefacto.
Em seguida, fechou a porta e arrastou Angel até um canto distante.
- O que é que tu andas a tramar? – Perguntou-lhe entre dentes – Trazes humanos e um lobisomem para minha casa? Só podes estar doido.
Angel afagou-o nos ombros e pediu-lhe para se acalmar.
- Não te preocupes! É tudo boa gente. Precisamos é de um grande favor teu. Tens quartos disponíveis onde possamos ficar hospedados durante um dia?
O sujeito riu alto e a bom som.
- Quartos são coisa que não falta aqui na minha hospedaria. O negócio anda tão bom que não tenho um único quarto alugado. Esta porcaria já não dá nada. O pessoal que aqui passa fica todo no centro da cidade que é onde existe diversão e farra. Aqui é uma terra de mortos.
Angel sorriu enquanto os outros membros observavam o aspecto sujo e velho daquela antiquada habitação.
Era uma hospedaria antiga, desarrumada e de muito mau gosto. As paredes não tinham cor e estavam manchadas de humidade. O hall de entrada onde estavam era completamente despido, sem cadeiras, sem móveis, sem decoração alguma.
O homem começou então a caminhar para junto a umas escadas em madeira gasta e pediu para o seguirem.
- Os quartos ficam no andar de cima. – Informou-os, apontando para o cimo das escadas.
Silenciosamente, todos os seguiram até ao piso superior.
- Como preferem ficar? Juntos ou separados? Tenho quartos de solteiro e de casal. Podem escolher à vontade, visto estarem todos vazios.
Angel observou-os e tomou a iniciativa de fazer a escolha.
- Queremos os quartos de casal. Nós dividimo-nos em grupos de dois. É melhor assim, não acham pessoal?
Todos foram peremptórios ao acenar afirmativamente com as cabeças.
- Eu fico com o Wolf. – Escolheu Angel.
Carlos aproximou-se de Alex e escolheu a sua companhia.
- Não! – Gritou Catarina desesperada. – Posso ficar eu com o Alex? Sinto-me mais segura se ficar ao pé dele. Eu e o Pedro somos os mais frágeis por isso se calhar não é boa ideia ficar juntos. Se algo acontecer não nos conseguiremos defender.
Alex concordou com a opinião da rapariga. Ele sabia que ela se encontrava assustada e como grande amiga sua fazia tudo para a proteger.
- Vamos descansar então. Temos que aproveitar este momento para repousar o máximo que pudermos. Estamos exaustos e bem precisamos de um grande sono numa cama verdadeira.
Angel aproximou-se do anfitrião e abraçou-o novamente.
- Obrigado por nos deixares ficar aqui, Severino. Eu sabia que podia contar contigo.
- Sabes que faço tudo por ti, Angel. No fundo, és como um irmão para mim.
Despedidas feitas, todos rumaram para os seus respectivos quartos, preparando-se para um descanso que já há muito mereciam.
Esta seria com toda a certeza a última oportunidade de conseguirem descansar antes do confronto mortal com Nesfiriti.