Capítulo 6 - O Início da Viagem
- Bom dia. – Esboçou Catarina com ar de quem pouco tinha dormido.
Pedro abraçou a rapariga, confortando-a nos seus braços.
- Bom dia. – Respondeu ele – Preparada?
As feições da jovem não pareciam muito animadoras. Notava-se receio e insegurança no seu olhar.
Aquela viagem marcada tão repentinamente deixara-a confusa. Acima de tudo, assustada com o que pudesse advir dali.
Catarina nunca fora uma rapariga dada a grandes aventuras. Era extremamente pacata e calma para viver tais emoções. O que a esperava agora era algo novo, ao qual não estava habituada e que a deixava sem saber como reagir.
Por seu lado, Pedro parecia bem entusiasmado. O brilho dos seus olhos aumentara e a sua agitação efervescente, tornava-o incapaz de esconder a sua ansiedade.
O sol começava a erguer-se no horizonte, aquecendo a terra ainda húmida debaixo dos seus pés.
- Está um óptimo dia para iniciarmos a nossa aventura. – Sorriu ele.
Catarina simplesmente franziu o sobrolho e encolheu os ombros.
Apetecia-lhe desistir e correr de regresso a casa mas… não podia. O Alex precisava de ajuda e o amor que sentia por ele era forte demais para o abandonar. Se realmente a vida dele dependia desta viagem, ela estava disposta a faze-lo, mesmo sabendo que imensos perigos estariam à sua espera.
Pedro olhava constantemente para o seu relógio. Parecia impaciente. Alex e Carlos ainda não haviam chegado e já passavam alguns minutos da hora marcada.
- Fogo. Eles nunca mais chegam. – Desabafou.
O tempo ia passando e não havia sinais daqueles dois, deixando-o cada vez mais inquieto. O entusiasmo inicial houvera-se transformado em nervosismo crescente.
- Será que aconteceu alguma coisa? – Perguntou ele a Catarina.
A jovem voltou a encolher os ombros e sorriu.
- Não faço a mínima ideia mas tu devias saber. Não és tu o vidente, aquele que sabe tudo o que vai acontecer?
O tom das suas palavras parecia irónico, quase cínico.
Não houve resposta, apenas um grande silêncio entre os dois.
Os minutos continuavam a passar e nem sinal deles.
Tanto um como o outro pareciam nervosos.
Montes de ideias pairavam nas suas mentes, enchendo-os de dúvidas e conflitos interiores. Teriam adormecido? Ou será que haviam desistido da ideia da viagem?
Catarina começava a temer algo pior…
Mas foi então que, quase com meia hora de atraso, Carlos e Alex chegaram ao local combinado.
- Perdoem o nosso atraso. – Desculpou-se Alex, cabisbaixo.
Catarina lançou-se energeticamente nos seus braços e beijou-o carinhosamente na face. A alegria de o ver era enorme.
- Aconteceu alguma coisa? – Perguntou Pedro com curiosidade.
- Atrasamo-nos, ok? – Respondeu Carlos.
Alex e Carlos pareciam esquisitos, como que escondendo algo.
- E então? Vamos? – Perguntou Alex, espetando o seu olhar em Pedro.
- Claro. Apenas estávamos à vossa espera.
Os quatro jovens concordaram então em dar inicio à sua perigosa viagem.
Em poucos minutos, chegaram à estação de comboios que se encontrava totalmente deserta e sentaram-se, pousando as mochilas pelo chão.
- Para onde vamos ao certo? – Perguntou Carlos.
Pedro pegou num mapa que trazia no bolso e abriu-o.
- Muito bem. Daqui seguimos até à estação de Vale Perdido. Aí chegando, apanhamos um autocarro que nos vai levar à Vila São Sebastião. Depois teremos que fazer o resto do caminho a pé. Temos que entrar na Montanha dos Idosos e atravessá-la por completo. Do outro lado da montanha, encontraremos a Vila das Nuvens, o local onde o Angel se encontra neste momento.
- Tens a certeza disso? – Interrogou Carlos desconfiado – Quem te garante que o Angel está nessa vila que falas?
- Eu sei. Confiem em mim. A viagem vai ser dura e vai durar cerca de três dias pois a montanha vai ser complicada de atravessar mas a recompensa vai ser bem satisfatória.
Alex e Carlos não conseguiam descortinar o que de satisfatório teria o reencontro deles com aquele ser monstruoso.
Catarina não abria a boca, amedrontada com tudo o que tinha pela frente.
Mais uma vez, sentiu vontade de desistir e abandonar aquela louca missão.
Alex colocou as mãos sobre os ombros de Pedro e observou-o timidamente.
- Espero que tenhas razão no que digas, amigo.
Pedro ergueu-se e soltou um sorriso meio amargo.
- Não temos outra hipótese. Esta é a única solução para conseguirmos lutar contra aquela bruxa. Sozinhos não temos hipótese alguma de a vencer.
- Será que ela é mesmo assim tão má como dizes?
As suas feições deixavam transparecer uma mente confusa, atolada de dúvidas e receios. Perdido e ao mesmo tempo indeciso com o que haveria de pensar.
- O que se passa Alex? – Perguntou Catarina, notando que o seu amigo não estava bem.
Alex virou-lhes as costas e sozinho, desorientado e de mãos nos bolsos, afastou-se uns metros, encostando-se a uma grade de aço suja que se encontrava num dos cantos da estação.
Os seus colegas apenas ficaram ali a observá-lo, respeitando a sua privacidade. Era notório que ele pretendia um tempo a sós.
- Alguém sabe porque é que ele está assim? – Perguntou Pedro.
Carlos olhou para o seu amigo com tristeza e balbuciou baixinho.
- Ele voltou a sonhar com ela esta noite.
Pedro cerrou os dentes e abanou a cabeça.
- E…? Isso é normal. Ela todas as noites o visita em sonhos.
- Sim. – Prosseguiu Carlos – Mas desta vez, pelos vistos, foi diferente. Ela não o assustou, nem lhe fez mal. E está visto que o deixou confuso.
- Confuso?... Pois. Eu sabia que isto iria acontecer mais tarde ou mais cedo. Ela está cada vez mais perto de conseguir o que pretende. Agora, chegou a hora de o seduzir.
- Seduzir a que ponto? – Perguntou Catarina, não conseguindo esconder o ciúme que teimava em apoderar-se dela.
Ela já sabia a resposta mas, masoquistamente, teimava em voltá-la a ouvir.
- Até ele se encontrar perdidamente apaixonado por ela. Até ao ponto de ele não ver mais nada à sua frente e apenas se guiar pelo feitiço que ela lhe lançou.
- Raios a partam! – Blasfemou Carlos irritado.
Catarina correu até Alex e agarrou-se a ele com força.
O que mais queria naquele instante era beijá-lo e confessar-lhe o quanto o amava, o quanto o desejava…
Alex parecia distante, imerso em pensamentos.
Nesfiriti não lhe saia da cabeça.
Por muito que tentasse abstrair-se, a imagem daquela doce mulher continuava mergulhada no seu pensamento.
Agora já nem precisava estar a dormir para sentir a sua presença. O seu perfume, o sabor dos seus lábios, o toque quente da sua pele parecia-o abraçar, não o querendo largar.
Um apito brusco soou então nos céus, quebrando todo aquele enorme gelo que se fazia sentir nos cérebros deles.
- Alex! – Gritou Carlos – Temos que ir. Vem aí o comboio.
Perante eles estava a chegar um comboio gigantesco, com cinco carruagens enormes, praticamente vazias.
Chegara a hora da partida do grupo, rumo a uma aventura que poderia transformar a vida deles por completo.
Pedro e Carlos agarraram as mochilas e caminharam até uma das portas de embarque do comboio. Não existiam razões para hesitar. O plano houvera sido traçado e agora a solução seria cumpri-lo, por mais árduo que fosse.
As pernas de Alex pareciam querer resistir à tentação de se movimentarem mas Catarina ajudou-o a caminhar até perto deles.
Não havia tempo para pensar, somente para agir.
A custo, conseguiram entrar todos no comboio e sentaram-se lado a lado, silenciosamente.
Estavam prestes a partir. Apesar de amedrontados, confusos ou desanimados tinham que se consciencializar que fora uma decisão tomada em conjunto.
O espírito de grupo e entreajuda teria que se elevar a tudo o resto.
Agora, mais que nunca, apenas contavam com eles próprios e era necessário restabelecer forças para levar tão árdua tarefa a bom porto.
Pedro continuava a ser o único a mostrar-se verdadeiramente entusiasmado.
Os outros três não conseguiam disfarçar o constrangimento que sentiam por terem aceite entrar naquela louca aventura.
- Posso-te perguntar uma coisa, Pedro?
Alex olhava-o quase sem pestanejar. Mas era um olhar alucinado e confuso.
- Claro que sim.
Depois de um suspiro profundo, Alex questionou-o.
- Tens a certeza que as tuas visões são correctas? Não há hipóteses de estares equivocado ou de as mesmas estarem camufladas, distorcidas da verdadeira realidade?
Pedro baixou ligeiramente a cabeça. Parecia querer preparar uma resposta convincente. Talvez procurasse as melhores palavras para os convencer que deviam acreditar nele, confiar acima de tudo…
- Não sei. – Respondeu – À partida as minhas visões costumam ser verdadeiras mas nunca se sabe… Posso estar enganado.
A resposta caiu que nem uma bomba no meio dos seus companheiros. Com toda a certeza não era a resposta que esperavam ouvir.
O que fazer agora? O comboio já tinha iniciado a sua marcha e era tarde para voltarem para trás. Mas, no fundo, as palavras de Pedro soaram a sinceras e acabaram por os tranquilizar.
O comboio corria veloz em direcção a Vale Perdido.
Seria uma viagem curta, de aproximadamente duas horas. Curta e silenciosa, pois ninguém parecia estar disposto a quebrar o gélido ambiente que habitava no interior daquela carruagem.