Capítulo 7 - A Montanha dos Idosos

16-02-2012 11:33

 

O comboio chegou a Vale Perdido por volta das 9 horas da manhã.

Foi uma viagem de duas horas, tal como estava planeada.

Vale Perdido era uma pequena terra montanhosa, simpática, com cerca de 40 habitantes. Era praticamente desconhecida e apenas servia de local de passagem para quem se dirigia até São Sebastião.

Os 4 jovens entraram então num pequeno autocarro que se encontrava estacionado frente à estação e sentaram-se nos bancos do fundo. Continuavam muito calados e ligeiramente carrancudos.

No banco frente a eles sentou-se uma idosa vestida de negro. Na cabeça trazia amarrado um lenço preto, o que lhe dava um aspecto algo assustador.

Eram os únicos passageiros do autocarro, o que era até bastante normal pois os poucos habitantes daquele local raras viagens costumavam fazer. Eram pessoas muito ligadas à sua terra, que viviam essencialmente da agricultura dos seus terrenos hortícolas.

O veículo colocou-se então em marcha.

Se tudo corresse dentro da normalidade, demorariam apenas 45 minutos a chegar ao destino pretendido.

Pouco depois da viagem iniciar, a senhora de idade começou a olhar para trás e a observá-los um a um. Parecia admirada com eles.

Eles continuavam sem nada dizer, silenciosos como um túmulo.

A idosa depois de os observar virou-se novamente para a frente e benzeu-se. Além disso, pronunciou algo que eles não conseguiram decifrar, o que os deixou curiosos.

Durante praticamente toda a viagem, a idosa foi-se benzendo e unindo as mãos para rezar. De longe a longe, voltava-se para trás e encarava-os com uma expressão amedrontada.

Ninguém percebia a reacção da estranha senhora.

Quando o autocarro chegou a São Sebastião todos se levantaram e, agarrando as mochilas, dirigiram-se para a porta de saída.

Nesse preciso momento, a idosa tocou no ombro de Catarina e arregalou os olhos.

As suas feições eram sinistras. Parecia ter muita idade, com a cara bastante enrugada e onde se destacava um nariz pontiagudo e uns olhos extremamente claros, quase envidraçados.

- Tem cuidado, minha filha! A morte anda convosco.

A rapariga estremeceu ao ouvir tais palavras daquela mulher.

Carlos aproximou-se.

- O que é que a senhora está para aí a dizer?

A idosa deu um passo atrás e voltou-se a benzer.

- Vocês estão condenados! A morte anda atrás de vós. Deus tenha piedade da vossa alma.

Ditas estas palavras a mulher empurrou-os e saiu a correr, parecendo apavorada.

Em poucos segundos desapareceu do alcance da vista deles, fugindo como o Diabo foge da cruz.

Todos pareciam aparvalhados com tamanha reacção.

- Fogo. A mulher era mesmo esquisita. Deixou-me cheia de medo.

Alex afagou a amiga nos seus braços, passando-lhe a mão nos cabelos.

- Não tenhas medo Catarina. Era apenas uma velha louca. Só o aspecto dela dizia tudo.

O certo é que, no meio de tantas dúvidas e receios, todos eles acabaram por ficar com um certo desconforto após tão estranhas palavras.

- Bem… Agora vem a pior parte. – Rematou de imediato Pedro – Está na hora de nos colocarmos a caminho para a Montanha dos Idosos. Vai ser a nossa maior complicação.

- E temos mesmo que ir a pé? – Perguntou Alex – Não existe outra forma de chegarmos à Vila das Nuvens?

Pedro abanou a cabeça em sinal negativo.

- Impossível. A montanha torna-se muito densa a meio e nenhum carro consegue fazer esse trajecto por causa da sua enorme vegetação. A única maneira de a atravessarmos é a pé e temos que ir já pois ainda nos vai levar perto de 3 dias de caminhada.

Os quatro companheiros colocaram os olhos no horizonte e vislumbraram uma enorme montanha que parecia não ter fim.

Catarina agarrou com força a mão de Alex. Somente ele lhe poderia dar o conforto que tanto estava a necessitar naquele momento.

De mochilas às costas, começaram então a caminhar rumo à estrada que os levaria ao interior da montanha.

Durante horas caminharam silenciosos por caminhos desertos.

Para onde quer que olhassem apenas conseguiam ver o verde das árvores e das ervas gigantescas que cresciam à face da estrada.

Aquela montanha era um verdadeiro Paraíso perdido.

Enormes pinheiros espetados em direcção ao céu combinavam harmoniosamente com os arbustos cheios de vida que os abraçavam como saias coloridas. Rochas gigantescas carregadas de musgo ladeavam a estrada, escondendo o interior da montanha que parecia querer proteger-se dos olhares da civilização moderna. Tudo parecia perfeito. Era uma autêntica combinação de harmonia com uma paz avassaladora.

Aqui e ali, ouviam-se barulhos de pequenos animais. Pássaros, cobras, roedores… Esta era uma montanha viva que existia praticamente no esquecimento do ser humano.

À medida que se aventuravam no seu interior mais densa ia se tornando a vegetação, quase tornando o caminho irreconhecível e impenetrável.

- Parece que estamos no Amazonas… – Deixou escapar Carlos com um alegre sorriso.

Pedro tomara a dianteira e tentava-os guiar com uma velocidade tremenda.

- Não achas melhor pararmos um bocado para descansar? – Perguntou Alex, não escondendo uma cara de cansaço e empatia.

- Vamos avançar mais um bocado. – Respondeu Pedro – Estamos quase a chegar a um sítio porreiro para descansar e comer qualquer coisa.

Catarina sentia-se exausta mas não queria mostrar ser o elo mais fraco e por isso sorriu. Já quase não aguentava a fome e a dor de pernas mas tentava não o demonstrar.

Umas boas centenas de metros mais à frente pararam por fim.

Diante deles encontrava-se um lago gigantesco, cuja água reluzia com o brilho do sol.

- Agora sim, podemos parar para descansar!

Pedro não escondia o seu contentamento por os ter conseguido guiar tão certinho aquele local. Ele sabia da existência daquele lago e sempre achara que era o local ideal para repousarem e restabelecerem energias para o resto da viagem.

- Isto é tão bonito. – Balbuciou Catarina por entre dentes.

O enorme lago de águas cristalinas e reluzentes pelo sol parecia convidá-los a descansar e a relaxar. Era um local muito harmonioso e um óptimo cartão de visita para aquelas montanhas.

- É incrível como um sítio destes é desconhecido pela grande maioria de pessoas. – Comentou Alex, deslumbrado – Com um pouco de publicidade poderiam tornar este local num verdadeiro Paraíso para muita gente, não acham?

Ninguém lhe respondeu. Pareciam ter ficado todos silenciosos naquela altura.

- Então, malta? Não acham que tenho razão?

Estranhando tão repentino silêncio, Alex virou o olhar ao encontro deles.

Não se encontrava ninguém perto de si. Os seus amigos, como por acto de magia, pareciam ter desaparecido, deixando-o só.

- Ei! – Gritou – Onde é que vocês se meteram?

Não se via ninguém por perto, nem se ouvia nada mais do que o som da natureza selvagem que o abraçava.

- Esta agora… – Sorriu – Deu-lhes para andarem às escondidas e deixaram-me para aqui sozinho.

Nisto, o seu olhar deparou-se com uma figura feminina que parecia caminhar ao seu encontro.

A jovem que se dirigia na sua direcção parecia flutuar, tamanha era a serenidade dos seus movimentos. Parecia embalada pelo vento.

Quando parou a pouco metros à sua frente, Alex reconheceu-a de imediato. Aquela pele, aquele olhar, aquela beleza estonteante… Nesfiriti.

- O que queres de mim? – Perguntou prontamente Alex, quase sem pestanejar.

Nesfiriti parecia portadora de um olhar triste. De olhos embaciados e uma voz baixa e meio rouca, acabou por se aproximar ainda mais e quase lhe sussurrou ao ouvido.

- Eu estou preocupada contigo, Alex. A tua vida corre sérios perigos e eu não quero deixar que nada te aconteça de mal.

- Onde estão os meus amigos? O que lhes fizeste?

A jovem vampira levantou o braço direito e encostou a palma da sua mão à cara de Alex.

- Eles estão bem. Eu apenas parei o tempo para me conseguir aproximar de ti. Eles continuam aqui do teu lado, apesar de não os veres. Eu abri um portal interdimensional para estar junta a ti. Apenas tu me vês e me ouves.

O som das suas palavras era hipnotizante, tão calma era sua voz.

- Tem cuidado. As aparências enganam imenso e os teus amigos estão a levar-te direito para a cova do lobo. Eu não te quero perder.

- Porque razões fariam eles isso?

- Tu és muito poderoso, apesar de ainda não o saberes. E o teu poder é causa de muita inveja e alvo de cobiça para imensa gente. O nosso destino é terminarmos juntos, partilhando os nossos poderes em simultâneo e construindo um mundo melhor mas existe quem nos queira separar, quem queira destruir essa premonição há muito ditada pelos Deuses.

Alex deitou as mãos à cabeça e rangeu os dentes.

- Não! Tu és má! Tu apenas queres servir-te de mim para destruir o mundo. Tu precisas de mim, sim, mas para te tornares ainda mais forte do que és e colocares em marcha esses teus planos de destruição da humanidade.

Nesfiriti deixou cair uma lágrima no chão empoeirado que os sustinha.

- Estás enganado, Alex. Eu não sou má. Nunca o fui. Nem tu o és. Nós somos os vampiros mais poderosos que existem em toda a humanidade pois ambos temos um coração puro, limpo de maldade ou más intenções. Juntos vamos conseguir fundir uma nova geração de vampiros. Serão seres puros que coabitarão em paz com os humanos e será a oportunidade de finalmente vivermos todos em paz, sem sermos considerados o lado negro, o lado escuro da sociedade.

Alex parecia cada vez mais confuso. Em quem acreditar? As palavras dela pareciam tão verdadeiras.

Subitamente, sentiu o corpo o corpo a tremer como atingido no epicentro de um terramoto. Quase não se conseguia segurar em pé. Parecia que mãos gigantescas o abanavam como se fosse um boneco.

A sua visão começou a ficar turva e Nesfiriti desapareceu, evaporando-se no vento, deixando apenas o seu perfume no ar.

- Alex! Então, meu? Acorda rapaz!

O jovem estremeceu e soltou um longo suspiro como se houvesse acordado de um longo pesadelo.

- Então? O que é que te aconteceu? – Perguntou-lhe Carlos, agarrando-o com força, não fosse ele cair.

Alex observou-o e nada respondeu. Parecia estar em transe.

Catarina agarrou-lhe a mão e ajudou-o a sentar-se, sentando-se a seu lado.

- O que é que se passou? – Perguntou ela – De repente ficaste gelado e estático. Até parece que viste um fantasma.

- Quanto tempo é que eu estive a dormir?

Catarina sorriu.

- A dormir? Tu não estiveste a dormir. Apenas bloqueaste durante alguns segundos. Quando olhamos para ti estavas quieto, quase hipnotizado. Até pensamos que te tivesse dado alguma coisinha má.

Alex levantou-se com um impulso e caminhou até ao pé de Pedro.

- Precisamos falar.

Pedro pareceu amedrontar-se e acenando afirmativamente acompanhou-o até perto de uma árvore, algo distanciada dos seus outros companheiros.

- Quem és tu? E porque nos trouxeste para aqui? Diz-me a verdade. Eu sinceramente não confio em ti, nem acredito em nada do que disseste até agora.

Alex parecia irritado e as suas expressões eram apreciadas ao longe por Catarina e Carlos.

- Que raios é que se terão passado? – Comentou Carlos – O Alex parece meio descontrolado. Está com umas expressões super esquisitas.

Catarina, amedrontadamente, segurava um terço que trazia enrolado ao pescoço e parecia rezar para que tudo não terminasse em desgraça. Ela não estava a gostar daquele mau feitio repentino que houvera se apoderado de Alex.

Pedro não escondia o seu nervosismo e certo desconforto. Sentia-se ameaçado por alguém mais poderoso que ele e que o poderia dilacerar a qualquer momento.

- Calma, Alex. O que aconteceu? Foi a Nesfiriti novamente? Ela está a tentar-te colocar contra nós, não é?

Alex riu.

- Ela está a avisar-me para ter cuidado com os falsos amigos. Parece-me que alguém está a tentar afastar-me dela e tal não deveria acontecer. E eu ando a ficar fulo com isso.

- Confia em mim, Alex. Eu avisei que isso ia acontecer. Ela está a usar todo o seu poder para tentar destruir a nossa missão. Ela sabe que nós juntos podemos destruir os planos dela.

- Eu não acredito. Nesfiriti é uma mulher com bom coração e ela apenas me tem tentado avisar que estou a ser enganado.

Pedro agarrou a mochila e voltou a pegar no livro que lhes houvera mostrado no primeiro encontro.

- O livro não mente, Alex. Se tens dúvidas consulta o livro e vê tudo o que essa rainha é capaz de fazer. Ela é a Deusa do mal, a rainha das mentiras, da sedução. Não podes confiar em nada do que ela te diz nos sonhos, nem mesmo quando se encontrarem pessoalmente. Ela vai fazer de tudo para te seduzir, para te roubar esse teu bem tão precioso e que tanta falta lhe faz. O problema é que ela deve estar a par do nosso plano e quer tentar deter-nos, pois sabe que a nossa Irmandade é muito forte e que a poderá derrubar. Sê forte, Alex e confia em mim. Por favor, confia em mim!

Após tais palavras, Alex pareceu sossegar.

Cada vez mais lhe custava distinguir a verdade. Em quem poderia confiar? No Pedro, que se prontificara vindo do nada em ajudá-lo a salvar a humanidade ou naquela que o deixava hipnotizado e apaixonado sempre que a via ou sentia o seu aroma?

Tantas dúvidas, tantos receios… E nada, nem ninguém que o ajudasse a enxergar a verdadeira intenção de quem o rodeava.

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