Capítulo 9 - Um aliado de peso
A lua já ia alta e ao longe ouvia-se o uivar de lobos solitários, num gemido angustiante e lamentoso.
Aquela vila fantasmagórica tornava-se incrivelmente assustadora quando a noite caía. O silêncio avassalador que se fazia sentir nas ruas desertas apenas era interrompido pelo sussurrar do vento e pelos sons nocturnos de lobos que, apesar de estarem longe, entoavam cavernosamente naquela imensa solidão.
Angel demorara a recuperar parte das suas forças e mesmo com várias horas passadas continuava frágil e debilitado.
Os quatro jovens haviam-no rodeado e conversado com calma, expondo toda a situação e tentando obter a sua preciosa ajuda.
Angel escutava-os, tentando acompanhar o raciocínio dos mesmos. Ele sempre fora um solitário, um foragido e nunca se imaginara a colaborar com alguém.
Mas a sua mente voava alto e o seu pensamento maquiavélico não parava de imaginar proveitos a ter com tal missão.
No fundo, sempre que ouvia o nome Nesfiriti da boca dos rapazes, a única coisa que lhe ocorria era vingança. Existia algo que eles não sabiam, nem sequer suspeitavam. Angel conhecia bem a rainha que eles procuravam destruir. Fora ela que o transformara no vampiro que ele agora é.
Tal como Alex e Carlos, não nascera vampiro, mas sim humano. O doce veneno de Nesfiriti é que o houvera transformado neste ser insaciável por sangue. Durante tempos foram aliados, pois o veneno que ela depositara nas suas veias havia sido demasiado poderoso, dando-lhe forças descomunais. A rainha havia-o transformado no seu maior soldado, no seu defensor.
Mas, como sempre, com as maiores alianças dão-se também as maiores traições. E Angel acabou por trair a confiança da sua progenitora. O poder que a mesma detinha começou a seduzi-lo, a deixá-lo embriagado. Com o passar do tempo, começou a tentar tirar proveito da sua proximidade com ela, tentando um lugar no trono ao seu lado. A partir dessa altura começaram as desavenças, os confrontos e Nesfiriti acabou por expulsá-lo, enviando-o para bem longe dos seus reinos.
Nesse dia, Angel jurou vingança mas o tempo passou e nunca teve hipótese de cumprir o seu juramento.
Agora, ao fim de tantos anos, voltava a ouvir o nome dela e todas as recordações passadas voltavam ao de cima, transformando-o numa criatura ávida por vingança e por reclamar o poder que sempre quisera para si.
- Então vocês querem a minha ajuda, não é?
Pedro observava-o com os olhos arregalados e um sorriso estampado na cara. Notava-se ansiedade à espera de um sim por parte do mercenário.
- Damos-te duas alternativas. – Proferiu Carlos – Ou te juntas a nós ou damos cabo de ti. Escolhe. É viver ou morrer.
Angel fitou-o com um olhar diabólico, quase prestes a fulminá-lo mas soltou uma risada energética.
- Eu aceito acompanhar-vos. No fundo, tenho umas contas a ajustar com essa tão temível Nesfiriti.
Alex coçou a cabeça.
- Contas a ajustar? Tu conhece-la?
- Sim, já me cruzei com ela em tempos e prometi um dia voltar a encontrá-la para faze-la provar o seu veneno. São histórias antigas que apenas a mim me dizem respeito, ok?
Pedro soltou um grito eufórico, esfregando as mãos de contentamento.
- Yes! Assim está a equipa toda formada. Agora ninguém nos poderá deter.
Angel levantou-se e olhou atentamente para a lua.
- Não! A equipa ainda não está totalmente formada. Falta mais um para estarmos completos. Se nos aventurarmos sozinhos, quase de certeza que nem chegaremos perto do castelo onde ela habita. O Alex e o Carlos são vampiros fracos, esses dois humanos nem se fala… Aqui no meio sou o único capaz de lutar contra o exército dela mas isso é uma tarefa impossível, mesmo para mim.
- Em quem é que estás a pensar? – Perguntou Alex.
Angel continuava fixamente a observar o brilho da lua. Parecia quase enfeitiçado pela mesma.
- Precisamos da ajuda de uma criatura tão forte como eu, apesar de sermos de espécies diferentes. Ele odeia a maioria dos vampiros por isso não terá problemas em se juntar a nós para destruirmos uma centena deles.
Isto apanhara-os completamente de surpresa. Não contavam ter mais aliados. Nem mesmo Pedro o havia previsto nas suas visões.
- A lua está cheia e brilhante. Sinto a sua presença por perto.
- Estás a falar do quê ou de quem exactamente? – Perguntou novamente Alex.
- Sigam-me. Se tudo correr bem, dentro de duas horas estaremos no seu local de caça. Ele adora caçar nestas noites de lua cheia.
Sem dar qualquer tipo de explicações, Angel começou a correr pelas estradas desertas.
Os quatro jovens, completamente surpresos, agarraram as suas mochilas e sem perder tempo correram ao seu alcanço. Não sabiam para onde se dirigiam, nem quem procuravam mas deixaram-se arrastar pois não queriam deixar Angel fugir.
- Não estou a entender nada. – Comentou Carlos – Afinal vamos à procura de quem? O gajo não diz nada. Cá para mim está é a tentar arranjar uma estrangeirinha para se por ao pira.
Continuaram a correr cerca de duas horas por entre estradas desertas, ruelas e caminhos empoeirados. Não se haviam cruzado com uma única alma. Parecia que aquele local havia sido submetido a um ataque apocalíptico.
Repentinamente, Angel parou e fez-lhe sinal para se conservarem em silêncio.
- Estamos perto. Eu sinto-o.
Catarina arfava ruidosamente, quase cuspindo o coração pela boca e Pedro, completamente exausto, aterrou de joelhos no chão. Esta corrida houvera-os consumido até ao limiar das suas forças.
Angel aproximou-se dum pequeno portão de metal e abriu-o.
- Venham. Ele está aqui dentro. Sinto-lhe o cheiro e também o das suas presas.
Alex agarrou a mão de Catarina e puxou-a para junto de si. Todos se sentiam intimidados mas ela, para além disso, estava terrivelmente abatida de exaustão.
Liderados por Angel, avançaram lentamente para o interior do portão.
Parecia estarem num enorme pátio de alguma fábrica abandonada.
Consoante iam andando, iam-se ouvindo estranhos ruídos, que pareciam ser o de alguém a mastigar, a quebrar ossos com os dentes.
Era um barulho assustador.
Angel fez-lhes sinal para pararem e avançou sozinho mais uns metros. Quem ele procurava estava ali, a poucos metros de distancia, escondido no escuro da noite e saciando a sua fome.
- Wolf! – Gritou a plenos pulmões – Lembras-te de mim?
Uma sombra gigantesca pareceu imergir da escuridão e algo começou a caminhar ao encontro deles.
A criatura que se aproximava não era humana.
Era um ser gigantesco, coberto de pelo, com um ar tremendamente feroz e com a boca coberta de sangue.
Alex e seus companheiros recuaram amedrontados.
Que criatura horrível seria aquela?
Angel não parecia amedrontado, continuando sereno no seu canto.
- Desculpa ter-te interrompido o jantar mas precisava falar contigo.
O ser horripilante caminhou até ao encontro de Angel e parou frente a ele, observando-o com um olhar ameaçador.
- O que fazes aqui? E porque razão me procuras?
Wolf deveria ter cerca de 3 metros de altura e pesar para cima de 200 quilos. O seu corpo era totalmente coberto por um pelo áspero e sujo. A sua cara tinha feições de lobo, com orelhas espetadas e a boca carregada de dentes afiados e grandes.
- Tenho algo a propor-te. – Respondeu Angel sorrindo – E sei que vais gostar do que tenho para te dar.
Os dois afastaram-se e foram dialogar para um local afastado do restante grupo.
- Que raio de bicho nojento é aquele? – Perguntou Catarina apavorada.
Pedro parecia não conseguir conter o seu desconforto e inquietação.
- Acho que esta coisa é um lobisomem. – Respondeu ele – Não repararam que a cara dele tem feições idênticas a um lobo? E o pelo… Só pode ser um lobisomem.
Carlos também não escondia o seu nervosismo.
- Bem… O gajo mete respeito. Seja ele lobisomem ou outra coisa qualquer conseguiu-me assustar. O tipo é gigantesco.
Alex parecia imerso em pensamentos, nada comentando.
- O que tens, Alex? Também estás assustado? – Intrometeu-se Catarina.
- Não sei mas algo está a cheirar-me mal. Eu sabia da existência dos lobisomens mas sempre soube que são inimigos mortais dos vampiros. Porque razão é que este é amigo do Angel e porque razão se irá ele unir a nós?
Os seus olhares não descolavam da criatura gigantesca que gesticulava e estremecia brutalmente, enquanto conversava com Angel. Parecia estarem a discutir, mas a distancia era grande e não conseguiam decifrar o que diziam.
Foram longos os minutos de espera, mas finalmente parecem ter entrado num acordo e voltaram a caminhar ao encontro deles.
- Muito bem, meus amigos. O Wolf vai-se juntar a nós nesta missão. Agora sim, a equipa está completa.
Todos engoliram em seco, perante o olhar assustador daquele titânico ser que parecia devorá-los com o olhar.
Wolf limitava-se a observá-los, não dando uma palavra, nem demonstrando qualquer sinal que os fizesse confiar nele.
Angel era o único que sorria parecendo bastante satisfeito com aquela união.
Ninguém sabia o que lhe ia pela cabeça, nem o que falara com Wolf.
E assim, sem contarem, aumentaram o grupo para 6 elementos, todos eles com diferenças notórias entre si. Alex, um vampiro com bom coração e cheio de dúvidas; Carlos, um vampiro áspero e intrigante; Catarina, uma jovem frágil mas com um poder extraordinário nas mãos; Pedro, um humano fraco mas com visões que os poderiam ajudar imensamente; Angel, um verdadeiro assassino e predador insaciável e Wolf, um lobisomem poderoso e sangrento.
Estes eram os 6 magníficos que iniciariam agora a mais perigosa missão das suas vidas. Era altura de unirem as suas forças e partirem para um confronto descomunal com Nesfiriti, a rainha das trevas, mãe de todos os vampiros